Olhares diferentes para a Moda

(imagem: Inez Van Lamsweerde & Vinoodh Matadin)

por André Robic – IBModa

Será que um jornalista científico tem alguma contribuição a dar para o mundo da moda?

Essa é a pergunta que o próprio Ricardo Bonalume Neto, repórter científico da Folha faz, no início de seu artigo “Um ET na São Paulo Fashion Week”, publicado na Revista da Folha há duas semanas.  O artigo prova que, mais do que conhecimento específico em um assunto determinado, vale o conhecimento geral sobre o todo, e o senso de observação aguçado – seja para a carreira jornalística, de estilista, administrador ou o que quer que seja. Somando-se a esses dois ingredientes o bom senso, chega-se a uma compreensão do todo, que permite entrar no detalhado e destrinchá-lo, como se fosse um perfeito especialista.

Vamos disponibilizar aqui a matéria na íntegra…

(SPFW)

REPÓRTER ESPECIALIZADO EM JORNALISMO CIENTÍFICO DECIFRA O MUNDO DA MODA

Um ET na São Paulo Fashion Week

por Ricardo Bonalume Neto

Você vai me visitar na São Paulo Fashion Week?, perguntou a Moça Bonita.

Difícil relembrar a resposta exata, mas sem dúvida houve uma hesitação de alguns segundos para dizer “vou”. Nunca antes na história deste país o cara tinha estado em um desfile de moda. Nunca tinha pensado em ir a um até descobrir que a Moça Bonita estaria ali trabalhando do meio-dia à meia-noite e que seria a única maneira de vê-la um pouquinho durante a semana. Uma literal escrava da moda…

Entenda o dilema deste cara, um jornalista especializado em ciência e em assuntos militares, cuja noção básica de moda é combinar uma calça azul com uma camiseta cinza, e vice-versa.

Um repórter que no mesmo ano cobriu o Protocolo de Kyoto e a guerra civil no Zaire (hoje Congo), que sabe definir o que é uma mitocôndria ou um destróier. Um sujeito que não sabe usar roupas de grife, mas usa um grifo para trocar uma torneira.

Para amenizar o mergulho no mundo fashion, a Moça Bonita deu de presente um livro útil: “Aurélia, a Dicionária da Língua Afiada”, de Angelo Vip e Fred Libi, com 1.300 verbetes do “universo gay”, de onde vem boa parte da linguagem dos “fashionistas”. Linguagem, por sinal, era o tema desta edição de inverno 2010 da SPFW, encerrada no último dia 22. Sem dúvida uma leitura inusitada para um “homem- homem” (tradução: heterossexual convicto).

Mais ajuda viria de alguns amigos jornalistas de moda. Lá estaria um príncipe dos profissionais da área, Alcino Leite Neto, editor da Folha. Duas grã-sacerdotisas fashion também me ajudariam, as jornalistas Lilian Pacce e Erika Palomino.

Pode até parecer que estou “fazendo a íntima” (tradução: fingir que é amigo), mas conheço as moças da época em que trabalharam nesta Folha.

O primeiro desfile a gente realmente nunca esquece. O meu foi o do estilista Fause Haten. As modelos surgem em “staccato”. Mal dá tempo para olhar a roupa de uma e logo aparece outra. Roupas extravagantes, exageradas. Peles, plumas, padrões coloridos, tecidos brilhantes, bolsas enormes. Todas usando uma enorme peruca preta, batom escuro, maquiagem clara; parecem um exército de clones, replicantes letais saídos de um filme como “Blade Runner”. “Que meda!” (tradução: que medo!).

Como nunca tinha visto tantas modelos juntas, logo reparo na magreza extrema.

Onde estão as curvas? Quando elas voltam, presto atenção (vamos dizer de modo delicado) nos seus “derrières”. Retos! Achei que era preconceito meu. Mas dias depois a Folha publica reportagem com o título “Magreza excessiva domina passarelas”. Ah, então não fui só eu que percebi que algo estava errado no pedaço!

A confirmação veio no desfile da Rosa Chá, um dos mais esperados, por ser a estreia do estilista Alexandre Herchcovitch na grife. Em roupa de praia, dava para ver os ossos de algumas dessas comedoras de alface. Claro, havia também várias mais saudáveis. Não dá para colocar um biquíni em uma modelo sem bunda, oras.

Esse desfile teve uma cena bonita. Uma moça perdeu um sapato alto, pegou o calçado do chão e desfilou com a elegância possível com um pé descalço. Achei um belo gesto. Depois me explicaram que elas são treinadas para agir assim; se fossem parar para colocar o sapato, criariam um engavetamento de modelos.

Bem, este ET que pousou na Fashion Week ainda acha que foi bonito.

Os desfiles podiam ser vistos também em telas espalhadas pelo prédio da Bienal, entremeados com outras coisas, como anúncios. Surge na tela a frase: “Moda é um território livre”. Mais orwelliano, impossível! O evento é repleto de seguranças e hostesses barrando a entrada dos mortais comuns, a categoria dos “sem- convite”.

O mundo fashion parece conter mais castas que a Índia. Aparecem pencas de “famosos” e “celebridades”, muitas delas da versão instantânea, como os integrantes de shows tipo “Big Brother” (uma criação de George Orwell, não custa lembrar).

Fotógrafos furiosamente clicam uma loira de vestido rosa. Não tenho a menor idéia de quem seja. O status é medido pelo acesso: aos desfiles, ao backstage (trad.: bastidores), aos lounges (trad.: sala onde tem espumante em taças descartáveis de plástico), aos brindes.

A primeira fila de cadeiras no desfile é reservada aos poderosos. Foi um pouco uma surpresa ver essa extrema hierarquização. É óbvio que isso existe em outras áreas. Não dá para ir entrando no chalé da Boeing no salão de aviação de Le Bourget sem ser convidado. Mas imaginava o mundo fashion mais aberto. “Isso aqui está cheio de víboras”, disse um colega.

Caminhava ao acaso pela avenida Brigadeiro Faria Lima quando tropeço, na frente do Shopping Iguatemi, com modelos masculinos carecas com uma maquiagem de caveira. Tinham estado ali em outro desfile de Herchcovitch, o “macho alfa” da matilha dos estilistas brasileiros.

E de novo vou refletindo como modelos jovens em início de carreira podem ser desumanizados, enquanto os “tops” são endeusados e tudo podem, até ter um corpo saudável.

Foi divertido dar um mergulho na superfície desse mundo aparentemente fútil, mas tendo na base uma indústria importante, de vestuário. Alguns desfiles mais “conceituais” não vão parar nas prateleiras das lojas, outros vão.

Fã de carteirinha de Sherlock Holmes, gostei de vê-lo homenageado na coleção da 2nd Floor (espero que isso não assuste os estilistas da grife, mas tinha coisa que até eu usaria). O mesmo não dá pra dizer da moda masculina de Mario Queiroz. A combinação de calça xadrez branca e preta com jaqueta amarela, vermelha, azul e rosa é assustadora.

Que meda!

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3 Respostas to “Olhares diferentes para a Moda”

  1. Pensando em Moda Says:

    “ET-telefone-minha-casa”

    Gente, o título da matéria me fisgou imediatamente!
    Texto delicioso, não?
    Pq é olhar desacostumado, sem fórmula…
    Mostra que a percepção pode fazer mil conexões, estabelecer inúmeras referências, abandonando a zona de conforto [conforto = mais-do-mesmo, repetição do discurso Da Autoridade — a propósito, autoridade ainda existe??]

    Quem, afinal, entende de moda?

    Entende de moda quem se permite, porque – creio eu – o estilista-artista não objetiva reação-única [coisa chata monte de robozinhos toscos pensando tudo-igual, né? nenhuma criatividade quer conversar com isso!!]
    Entende de moda quem olha, sem preconceito de certo&errado, porque o espetáculo, a roupa, o editorial ou o veículo que for vale pela novidade.
    E ser novo é provocar uma ruptura, um desajuste, convidar a um outro prisma.
    Não deve ter coisa mais frutrante para o BOM fotógrafo, ilustrador, estilista… ver que sua obra foi recebida com cara-de-pastel.
    Ora, quem cria quer desestabilizar, quer “causar”

    • Ocorreu um erro. É provável que o feed esteja indisponível. Tente mais tarde.

    .

    Bom, aí, ah… não resisto…
    Em comentário a outro blog, nesses dias recentes mesmo, tive diálogo a respeito das traduções da moda.
    Ou seja, do que se escreve sobre a dita e da gravidez de sentidos que as imagens guardam. E aguardam: interpretações.

    Como parece combinar com esse texto, deixo o link do blog [super gostoso, da @nathaliailovatt] com o post que originou o papinho: http://naosaidemoda.wordpress.com/2010/01/25/tao-ta-entao/#comments

    beijo!
    Lu
    @pensandoemmoda

  2. Andre Robic Says:

    Lu,

    Com certeza, o olhar quanto mais puro e sem preconceitos mais longe nos leva. Isso pode parecer impossível, principalmente em função da quantidade de imagens a que somos expostos a cada dia, mas de qualquer maneira, o artigo chama a atenção para isso – e para a possibilidade de treinar esse novo olhar sobre as coisas, as pessoas e as situações.
    Beijos

    André Robic

  3. Aline Says:

    que texto genial, muito mais sensato do que os de muitos jornalistas de moda por aí. muito melhor ver crônicas como essa todos os dias do que textos com as “tendências para a próxima estação”, mas infelizmente o jornalismo de moda tradicional ainda não permite esses devaneios…

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